Austin Osman Spare

Spare, foi um artista gráfico interessante e inovador, fato que por si só já faria dele um homem bastante singular. Todo artista é singular em sua Arte…
Entetanto, Spare foi também ocultista e dos mais contraditórios…Era o que se chama popularmente um "Mago Negro", pois praticava a magia característica dos iniciados da Via Sinistra, ou "Caminho da Mão Esquerda".
Pessoalmente, não faço a mínima diferença entre as "cores" atribuidas à magia.Negra, branca , cinzenta, amarela ou cor de rosa.. Tanto faz…Magia é magia e ponto final. A Magia não tem (e jamais terá) qualquer cor…
Mas como esta página predende ser mui didática, acho melhor explicar que o termo significa (mais ou menos) a Senda ou "Caminho" utilizada por aqueles que se valem das energias sexuais para adquirir e imprimir controle não apenas sobre si memos, mas também sobre os mundos ditos "invisíveis".
Diga-se de passagem que seus rituais não costumam ser, digamos, algo que se possa confundir com as atividades da Escola Dominical ou uma reunião de escoteiros.Bom, nunca se sabe… Mas, seja lá como for, Spare foi reconhecido como um Mestre da Via Sinistra por aqueles que se julgam em condição de avaliar tais práticas e iniciou o núcleo de um movimento conhecido como ZOS KIA CULTUS.
Que não pense, porém, o candidato a neófito, que basta ser iniciado numa fraternidade esotérica qualquer para se conseguir acesso à corrente mágica deste "Cultus". Não funciona assim…
Para se beneficiar desta poderosa prática de magia, primeiro será necessário colocar-se em perfeita sintonia com o "Espírito do Culto". E, de quebra, ter um bom padrinho lá dentro.. Afinal, como é dito na minha terra: "quem tem padrinho não morre pagão"…
Estou brincando com as palavras, mas quero dizer apenas, que a única diferença real entre um sistema de magia e outro são seus rituais e formas de culto. Afinal, os objetivos quando despidos dos seus "enfeites" externos, em qualquer que seja o sistema (e quer siga pela via dextra ou sinistra) no final, sempre levará a um mesmo ponto.
Entretanto, é fácil intuir que nem todas as pessoas se sentiriam confortáveis em qualquer tipo de culto ou ritual. Isso vai variar com seu temperamento, afinidades, mas e principalmente, com seu grau de percepção e sensibilidade. (continua)

A biografia de Spare poderá ser encontrada em qualquer lugar, por isso, aqui vão apenas algumas informações ligeiras sobre seu sistema.Conta-se que o interesse de Austin Spare sobre a teoria e a prática da bruxaria, foi despertado ainda na infância. Sua "nanny", uma mulher idosa, do interior da Inglaterra, chamada Paterson, afirmava-se descendente e, por via direta, da linhagem das famosas feiticeiras de Salem. Talvez fosse verdade, pois na obra de Spare aparecem vários elementos típicos das tradições ocultas, repletos daquela vitalidade própria aos ensinamentos arcaicos e comunicados por via oral. Se Spare não "criou" tudo isso (era um Artista, lembra-se?), possivelmente foi mesmo ensinado por um iniciado de alguma antiga tradição oculta.
Embora todos os ocultistas treinados possam adotar uma ou outra pratica, geralmente "feitiçaria ou bruxaria" significam "aprisionar espíritos dentro de um círculo" enquanto que praticar "magia", seria a "arte de criar encantamentos ou 'fascínios'". As diferenças são praticamente semânticas, mas os métodos de Spare parecem pertencer mais à bruxaria que à magia.
Para Aleister Crowley, por exemplo, a sexualidade não seria apenas o centro da bruxaria e da magia, mas também a chave para ambos os sistemas. Austin Spare achava mais ou menos a mesma coisa.Entretanto, a maneira de vivenciar este conceito diferia bastante em ambos.Este fato, obviamente, resultou em sistemas também diversos.Enquanto para Spare a bruxaria é um meio de realização do prazer dos sentidos, transmutando, por exemplo, o horrendo no belo, o senil na juventude brilhante e, principalmente, a Natureza em Arte, para Crowley ela é um meio de adquirir e irradiar vigoroso e invencível poder, transformando a fraqueza sórdida em força vital e, (como sonham todos) ignorância em Conhecimento.
Isso não deixa de ser natural. Além dos temperamentos e aptidões diversos, ambos os "Bruxos" tiveram ainda "preceptores" inteiramente diferentes.
Crowley, foi muito marcado por MacGregor Mathers, Grão-Mestre da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada, um sujeito enérgico e mesmo rudel (com quem, mais tarde haveria de se desentender seriamente), enquanto Spare foi influenciado ( e talvez de certa forma "iniciado") por sua babá, a feiticeira Paterson, a velha bruxa arquetípica, a qual, teoricamente, podia transmutar-se em criatura de extraordinário poder de sedução quando lhe dava na telha.Bom, pelo menos é o que se diz Ah… "Glamoury, Glamoury"…
Spare chegou a fazer parte da "Fraternidade da Estrela de Prata", fundada por Crowley, a partir da Golden Down. Apesar do motto "Yihoveaum" ou " Eu sou Aum", isto é, a Eternidade, Austin Spare não se demorou muito por lá…
Parece que a disciplina e o autoritarismo de Crowley não combinaram muito com a concepção de liberdade de Spare, que sonhava com a expressão irrestrita do "sonho inerente", no fundo muito próximo do Thelema formulado por Crowley. Temperamento diversos, talvez… E egos gigantescos…
Mais tarde Sapare usou o nome iniciático (motto) de Zos vel Thanatos, ou simplesmente Zos. Este indica claramenteva natureza da sua obsessão: o corpo e a morte. Ele definia 'Zos' como "o corpo considerado como um todo" e nisto ele incluía corpo, mente e alma. O corpo era seu athanor, a "retorta" da sua bruxaria. Seu outro símbolo chave, 'Kia', representa o "Eu Cósmico ou Eu Superior, que utiliza 'Zos' como seu campo fenomênico.
O culto de Zos e Kia requer a interação polarizada da energia sexual em suas correntes positiva e negativa, simbolizada pela mão e pelo olho. Estes são os intrumentos mágicos utilizados pelo bruxo para invocar as energias primais latentes em seu inconsciente. A mão e o olho, Zos e Kia, 'Toque-Total' e 'Visão-Total', são os instrumentos mágicos do desejo primal ou obsessão inata que Zos está sempre buscando para corporificá-la em carne. O sistema de Spare assemelha-se vagamente a certas técnicas de alguns sistemas de yoga. O objetivo da meditação seria abolir ebulição sem sentido da "mente pensante" de modo que a mente superior atinja o estado não-conceitual e se dissolva na Consciência indiferenciada. Contudo, no Culto de Zos Kia, é o corpo (Zos) que se torna sensível a todos os impulsos da onda cósmica, de modo a "ser todo sensação" para realizar todas as coisas simultâneamente em carne , mas "aqui " e "agora".
Nem sempre porém, Spare definiu claramente os termos por ele criados, embora fosse bem objetivo quanto às suas intenções. Infelizmente, verbalizava com certa dificuldade e muito do que parece obscuro em seus escritos se deve a esta carência.
Basicamente, entretanto, o "Zos Kia " postula uma interpretação literal (isto é, física) da identidade entre Samsara e Nirvana .
Porém, julgo interessante ressaltar que, se a "dialética" contida no "Nirvana" seria o próprio "Sansara", eles não deixam de ser também um par de opostos… Portanto, deveria haver algo ainda para além da famosa iluminação búdica, que ultrapassasse realmente todos os pares de opostos.. Inclusive o próprio Nirvana. É lógico…
O sistema de Spare também sugere um novo "obeah", ou tipo xamanismo, atávico e sempre caracteristico da magia primal, baseada na obsessão e no êxtase. Há até um "Alfabeto do Desejo", onde cada letra representa um impulso dinâmico e sexual e foi desenvolvido por Spare na tentativa de grafar estes sons primais. A explosão de êxtase é a realização de Zos.
Em suas "Anotações sobre Letras Sagradas" Spare ressalta que "as letras sagradas preservam a crença do Ego, de modo que a crença retorne contìnuamente ao subconsciente até quebrar a resistência. Seu significado extrapola a razão, embora seja apreendido pela emoção. Cada letra, em seu aspecto pictórico, se relaciona a um princípio sexual… Vinte e duas letras que correspondem a uma " prima causa" e cada uma delas análoga a uma idéia de desejo, formando uma cosmogonia simbólica."
Estas vinte e duas letras, embora não sejam dadas consecutivamente (nem inteiramente) nos escritos de Spare, poe certo guardam analogia com as vinte e duas cartas do Tarot, ou com o Livro de Thoth de Aleister Crowley. Lembram também, de certa forma, os vinte e dois caminhos da Árvore da Vida. Todavia, talvez por conta do meu espírito de porco", tenho a vaga (mas bem fundamentada impressão), que tanto Spare quanto Crowley andaram lendo Francis Barret.
E com toda atenção…

Austin Spare foi também muito inflenciado pela arte de William Blake. Aliás, costumava confessar ser "possuido" por seu espírito de vez em quando. Nada muito espantoso, pois Blake, por sua vez, seria capaz de jurar que era uma "reincarnação" do poeta John Milton, autor do "Paradise Lost"…
em assim sendo, como meu eventual leitor poderá facilmente perceber, os Artistas acabam todos pertencendo a uma mesma família. Formam um grande clan…
Mas brincadeiras à parte, Spare, asim como Blake , tentou exprimir experiências espirituais por meio da pintura. Dizem os entendidos, que quem não tenha passado por experiências similares só poderá vislumbrar a natureza das mesmas… A pintura acima, entretanto acerta em transmitir uma idéia do estado de consciência experimentado pelos que "sentiram o espíriro imortal escapapando das ataduras da carne" durante um rirual mágico.
Mario Praz considerava Austin Osman Spare um pintor demoníaco, "um ocultista satanista"…
Pouco importa a fé que professava. Sem dúvida foi um Artista.
Apesar de todas as lendas pitorescas que cercam sua biografia, aprendeu a Magia do "Amanhecer Dourado", comunicada por Aleister Crowley.
Mas será que alguém realmente "aprende" a Magia? Não seria ela inerente a todos nós?
Talvez fosse mais próprio dizer que Spare "aprendeu" as técnicas que o ajudaram a desenvolver e utilizar seu potencial mágico na Golden Down.Mas deixa lá…
Como já comentei, a filosofia fundamental de Spare era muito similar a do "Livro da Lei", o inspirado poema em prosa que Crowley considerava como o evangelho do Éon de Horus e que resumiu no seu Liber LXXVII. No entanto, Spare apesar de já rompido com Crowley, admitiu publicamente sua aceitação do Liber Legis.
Em contrapartida, Crowley admirava muito os desenhos automáticos de Austin Spare e incluiu vários deles nos primeiros números de sua publicação semestral, The Equuinox, publicada de 1909 a 1013.
